Saramago vive.

“Os seres humanos são nascidos sem asas, é o que há de mais bonito: nascer sem asas e fazê-las crescer”.

Essa frase (que talvez nem esteja totalmente correta, mas é como a recordo) foi o primeiro contato que tive com o escritor Saramago. Eu estava então na oitava série. O ano, 1999. Li-a num sulfite pregado ao mural de cortiça da sala de coordenação da escola. As palavras chamaram-me a atenção e mais do que depressa eu as decorei (um costume antigo). Alguns anos mais tarde, eu já tinha lá uns 17, deparei-me com o mesmo excerto durante a leitura do Memorial do Convento e lembro-me da surpresa, e de como foi sincera a emoção por encontrar naquelas páginas algo que fazia parte de meu passado, minha história – as tais lacunas preenchidas.

Hoje, diante da triste notícia, essa lembrança emergiu necessária – como um mergulhador que vem à tona para recuperar o fôlego. Inevitável pensar no começo quando se chega ao fim. Porque, para mim, aquele foi o começo, e hoje, para ele, esse é “um” fim.

Saramago me fez amar o que é humano. Cru, desmistificado, autopsiado.

A humanidade exposta, em carne-viva. Frágil, falível e inacabada. E grandiosa por tudo isso.

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