Intermitências da Morte.

“Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.”

SARAMAGO em As Intermitências da Morte.

Saramago aproveitou a vida. Ele sabia das coisas. E uma das passagens mais bonitas da sua biografia é sua história de amor com Pílar del Rio. Um documentário sobre esse encontro será lençado em breve. Vejam o trailer:

Esse homem encontrou seu grande amor aos 63 anos.

A vida nos reserva surpresas.

Todos sentimos a perda de Saramago. Mas hoje ninguém está tão triste quanto Pílar.

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