Hoje. Sempre.

É diferente da visão que se tinha da morte na Idade Média, em que vivia-se dentro dos cemitérios. Na França, as pessoas viviam dentro dos cemitérios. Isso parece completamente absurdo, mas aconteceu. O contrário disso é a preocupação que temos hoje de fazer de conta que a morte não existe. Obliterá-la, tirá-la da paisagem. Isso é o que nós fazemos. Os funerais já não atravessam as cidades. As carruagens fúnebres, puxadas a cavalo, esses cavalos já não puxam essas carruagens. Há para mim essa preocupação com a morte ao longo do tempo. A minha contribuição para essa matéria consiste em olhar para ela com certa ironia. Estou a tentar rir-me de mim mesmo aí, como ser mortal que sou e consciente de que estou a brincar com a pobre, porque, evidentemente, um dia destes ela pega-me.

José Saramago, 2005, em entrevista concedida à Folha de São Paulo *

Hoje ela o pegou. E nos pegou todos, desprevenidos e distraídos que somos do fato de que ela está sempre um pouco mais perto. Hoje não o pegou somente. Pegou-nos todos – de todos, um pedaço. O luto não é hoje. O luto é  sempre: por esse pedaço que vai sempre faltar.

* http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/753302-escrever-sobre-a-morte-e-escrever-sobre-a-vida-disse-saramago-em-2005.shtml
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