Cinq.

Aprovado pelo Comitê pela Decência & Bôns costumes da Heitor PenteadoOUTRO.

————–

“Tem mais café lá?” perguntou Carol ao meu lado,  arqueando a sobrancelha esquerda e esticando as maçãs do rosto que a deixavam parecendo um coelho. Ou uma fuinha. Sim.
Se Carol tivesse dentes afiados seria uma fuinha.
“Palerma, me escuta. Você fez ou não fez mais daquilo?”
Virei a caneca no pires e aguardei a formação dos símbolos mágicos.
“Deve ter um resto na panela”  e gritei para Andrea na cozinha: “cuidado que tá forte”.
Carol olhou-me e moveu os ombros pra cima e pra baixo enquanto sacava um pouco da maconha escondida debaixo do sofá e bolava um baseado com papel de seda marca “Hemp©”, aquele que tem o Bob Marley sorridente na caixa.
Quando ela começou a fumar, há um ano e meio, por influência de Andréa, não tínhamos nenhuma sofisticação. Puxávamos o fumo bolado num guardanapo de bar, coisa de mendigo mesmo.
Foi necessário uma Carolina, novata, sophisticated lady, que (one of us! one of us! one of us!) comprou, no Terminal Rodoviário Internacional do Tietê, o primeiro estoque de papel de seda qualidade superior, marca Hemp©, importado diretamente da Jamaica (que, como todos sabem, é o maior produtor mundial de papel de seda).
Andréa retornou de sua visita à cozinha, rebolou provocante à minha frente por um instante e, enquanto Carol engasgava o baseado, perguntou se queríamos o Sucrilhos que ela comia e sentou-se entre nós.
Éramos uma perfeita sagrada família, santa ceia. Uma fumava, outra comia sucrilhos.
Peguei minha caneca e desvirei, procurando, em meio aos grumos de pó de Café torrado e moído,
filho de terras altas do Espírito Santo, casta nobre pós-infusão, figuras e imagens que sugerissem os
desafios e vitórias que encontraria no futuro imediato.
“É como imaginar animais nas nuvens” Andréa me havia dito uma vez, há séculos.
“Nunca vi animais como nuvens” eu disse choroso.
“Nuvens como animais” ela me corrigiu, com sucrilhos na boca. “Se você nunca viu nuvens
como animais, duvido que consiga ver qualquer coisa além de café no pó dessa caneca”.
Qualquer um podia ver animais, objetos, plantas, nas nuvens. Menos eu. Nem em meus
arroubos de criatividade mais selvagens, nem intoxicado com doce farinha ou amarga fumaça.
Tudo o que via eram nuvens. E essas nuvens só me lembravam outras nuvens.

——— continua

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. patdelkarmo
    jun 13, 2010 @ 16:10:40

    Essas minas tomam muito café velho!

    mas tô curtindo :)

    Responder

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