ATA da II Reunião do Club du Livre

Prometia ser uma noite como qualquer outra. O caminho até Chez Danessa era árduo – mas subir a montanha tem suas vantagens. O ar lá no alto é mais rarefeito e saudável, o ponto de vista é de domínio sobre a cidade. Mas antes, eram necessários víveres. Quem se dispõe a pensar e pensar e repensar não pode descuidar dos prazeres corpóreos – e foi com esse espírito que Marcos e Prederico fomos à caça. Caçamos pães e patês – porque esse é o papel do macho-predador no século XXI: caçar comida em supermercados e padarias. A coleta é coisa de fracos, metrossexuais e loseres afins. Já ir às compras é coisa de mulherzinha. Mulher do padre.

Com o farto butim carregado por nossos braços fortes, mãos amigas, finalmente subimos a Montanha Mágica, Chez Danessa. Prometia ser uma noite como qualquer outra. Entre as nuvens, a doçura e suavidade maternais de Lílian e Danessa nos aguardava no sofá. Era uma noite de impostos de renda preta, muito muito insinuantes. Todos nos surpreendemos em face da inação da população brasileira, claramente conservadora, frente a uma renda preta tão obscena.

A discussão do livro do mês, «A Metafísica dos Tubos» começou quando nós homens machos predadores ainda estávamos no sofá. Rapidamente, entretanto, as gurias, plenas de perspicácia observaram-se excluídas da conversa – e trataram de seduzir os homens para a mesa, onde, de um modo mais apropriado todos se sentaram, contentes, em suas posições de sempre.

Theo, um pequenino herói imberbe decidiu que queria comer todos os patês do mundo. O pequeno Tubo não se fartaria tão cedo – e comeria mais do que Danessa e Lírian juntas. Afinal, todo Tubo vazio que se preze DESEJA ser preenchido. E foi dessa observação que iniciou-se

A DISCUSSÃO.

Ao início, tudo era treva. E a voz de Lírian ressoou pela escuridão:

“Escolhi a Metafísica dos Tubos porque gosto muito da Autora. Já li seis livros dela – e a conheci entre Paris e Bruxelas. Juntas comemos chocolate branco belga e um mundo novo se descortinou ante meus olhos. Pude observar cores antes não vistas, senti coisas antes melhor não sentidas, tentei coisas antes que o dia terminasse – e terminamos nos comunicando tão bem que a leitura da Metafísica dos Tubos me pareceu o mais correto a fazer.”

Prederico gostou da atitude de Lírian e perguntou se ela era tão feia, na vida real, quanto na segunda orelha da edição brasileira do livro.

“Bem, ela certamente não é tão bonita quanto a foto na capa da edição francesa. E houve uma época em que ela era realmente bela. Mas hoje seus traços não são tão refinados quanto sua escrita. E o chocolate branco belga certamente faz muito para que gostemos mais dela pessoalmente do que apenas a observação de seu perfil permitiria. O que percebi com mais clareza é que a água é um tema recorrente em seus escritos.”

Kakob notou que a água é frequentemente associada ao subconsciente – o que encaixa com a idéia e a proposta do pai que cai em um bueiro aberto – Uma viagem ao subconsciente da garota que, mesmo perdida em seus devaneios, termina por dizer à mãe que o pai está trabalhando… no consulado, sob as águas.

Prederico concorda com isso e elogia as divagações metafísicas, sofisticadíssimas, através de uma percepção única, aos olhos de um TUBO, de tudo o que é corriqueiro e mundano. Uma grande arte.

Markos esperava mais. Danessa diz que Markos esperava um livro pretensioso – mas que a Metafísica é despretensiosa mesmo.

De modo interessante, Markos explica seu ponto de vista e sua decepção dizendo  que apesar de gostar do fato de que a Autora “descobre o mundo” à medida que nomeia as coisas – i.e., as coisas passam à existência a partir do momento que ganham nomes – se sentiria mais viril se Nothombe fosse mais ponta firme com relação a essa porção da narrativa, se aprofundando mais nesse aspecto.

A MORTE? A MORTE ERA O TETO

Por fim, apesar de algumas pequeninas divergências menores do que a Nina, todos concordaram em gênero, número e grau: Um Puta de Um Livro, excelentemente bem escolhido e que tirou, de todos, a má-impressão causada pela escolha anterior do Membro de Prederico Kling.

Em uma boa história, as coisas nunca são exatamente aquilo que parecem. A boa história é esfíngica, labiríntica, oculta. É a promessa da revelação de um segredo mais profundo. Ela te acompanha quando vc pega um ônibus. Ela sobe escadas a seu lado. Ela perturba seu sono. Ela se faz crer no que é impossível e se faz inverossímil no que é trivial. A boa história não fica apenas nas entrelinhas ou nas possibilidades interpretativas. A boa história é a história de nossas vidas, é a máscara que colocamos.

Uma semana depois da Reunião ainda comentávamos o Livro, ainda pensamos nele. Ele não nos deixa em paz. Depois de uma semana, ainda temos o alto da montanha na cabeça.

Notas:

Lílian – 9.0

Danessa – 9.5

Prederico – 8.75

Markos – 8.0

Kakob – 8.5

Média: 8.63

Para comparação, a média obtida pelo livro de Prederico, na última reunião foi de: 4.8

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7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Lílian Melim
    maio 04, 2010 @ 00:28:44

    Finalmente algo sem frango à passarinho!

    Responder

  2. laszlo kovacs
    maio 04, 2010 @ 00:36:33

    O filme deve ter sido péssimo pra tanto mau humor hein? :P

    Responder

  3. laszlo kovacs
    maio 04, 2010 @ 01:13:16

    Percebi hehe – Gostei dos comentários sobre o filme ;)

    Responder

  4. lachattenoire
    maio 04, 2010 @ 22:39:39

    Hum… acho que depois desse texto sem frango a passarinho e com muito chocolate brenco Jacob pode continuar sendo o pauteiro. Pelo menos até a próxima reunião.

    Responder

  5. laszlo kovacs
    maio 04, 2010 @ 23:31:20

    Votos de confiança (em público!) me deixam tão feliz :P

    Responder

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