Crítica: Amélie Nothomb “do nada ao nada”

Abaixo uma crítica sobre a Amélie (Nothomb, não Poulain)

13/09/200305h47

Escritora Amélie Nothomb caminha do nada ao nada

ROGÉRIO EDUARDO ALVES
da Folha de S.Paulo


“Estranha” talvez seja a melhor palavra para classificar, não apenas a sensação do leitor de um livro de Amélie Nothomb, 36, mas principalmente a engenhosa prosa da escritora. Dois exemplos recém-lançados no país são os romances “A Metafísica dos Tubos” e “Dicionário de Nomes Próprios”, cujas histórias partem do nada, passam por algumas peripécias na melhor tradição romanesca e terminam no nada.

O parentesco que esse caminho mantém com a produção dos autores classificados como “do absurdo” é declarado. “O absurdo não é para mim senão a exploração dos novos lugares da causalidade mais conformes à verdadeira vida do que a lógica cartesiana”, diz a autora entre Bruxelas, na Bélgica, e Paris, na França, as cidades nas quais escolheu morar.

No centro de um desses particulares universos estão os olhos aterradores da menina Plectrude, protagonista de “Dicionário de Nomes Próprios”. Filha de uma mãe suicida e de um pai assassinado, a menina fascina-se com os textos do dramaturgo Eugène Ionesco (1909-1994) –um dos expoentes do “teatro do absurdo”– quando decide se tornar atriz, alternativa única depois da constatação da impossibilidade de se realizar como dançarina.

Mas o toque mais próximo das criações de Ionesco é a invasão da narrativa pela própria autora. “Não me coloco na literatura forçadamente. Se eu apareço, é porque tenho alguma coisa de concreto a fazer lá.”

E, quando não surge como personagem, a escritora faz de sua vida o tema do livro. No entanto, a “história de vida” dessa escritora nascida em Kobe, no Japão, filha de pais belgas, e sucesso na França, onde recebeu o Grande Prêmio da Academia Francesa em 1999, não é contada da maneira tradicional que se poderia esperar de um romance autobiográfico.

Em “A Metafísica dos Tubos”, tudo começa no útero da mãe. “No início não havia nada”, escreve a autora. Embora com uma influência mais velada que a descarada participação de Ionesco no “Dicionário”, a literatura de Samuel Beckett (1906-1989) –outro autor classificado como “do absurdo”– parece ditar o ritmo dessa história.

Mais que isso, o início da personagem existindo no ventre da mãe como um ser divino de formato tubular que nada carrega em si (“uma membrana de existência protegendo um feixe de inexistência”) parece se ligar ao não-personagem de Beckett de “O Inominável”. Naquele livro, o narrador vai perdendo sua forma, transformando-se em coisa até alcançar o nada.

Mas, se o nada beckettiano constrói-se esvaziado, o de Nothomb vai preenchendo-se de uma história contada do ponto de vista de uma criança que descobre o mundo particular em que vive, em um Japão onde o pai diplomata canta nô e o bebê fala japonês com a sua babá nipônica. Até que o ciclo se fecha, perfeito: “Depois, não aconteceu mais nada”.

“Como todos os escritores que fizeram retroceder os limites do dizível, Beckett e Ionesco contribuíram para minha máquina literária”, diz Nothomb, autora de, entre outros, “Higiene do Assassino” e “Medo e Submissão”.

A sugestão de implicações filosóficas que as narrativas de Nothomb podem trazer é resumida por ela mesma: “A literatura será sempre uma explicação parcial, mas é de fato um domínio onde é possível explicar uma parte do inexplicável de si”.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u36798.shtml

Fonte (imagem): http://www.savemybrain.net/numero4/21113amelie_nothomb.html

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. laszlo kovacs
    mar 29, 2010 @ 01:00:50

    Hmmmmmm instigante, devo admitir.
    Deu vontade de virar stalker literário (mudando completamente, essa foto dela com a espada me lembrou uma outra coisa……. mas, mais sobre isso amanhã ab Melinius domum) – vocativo é domum? Ou domus? Ou não é vocativo?

    Responder

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